Uma linda casa amarela que ganha vida a cada dia ou a cada nova chegada! O espaço é um prédio público, cedido pelo município de Toledo, para um projeto humanitário que é a porta de esperança e amizade a quem chega na cidade para recomeçar. Esse foi o palco de uma série de eventos que chamou a atenção da comunidade regional.
Na casa amarela, entram pessoas com idiomas e culturas diferentes; mas, em comum, elas enfrentam os desafios de começar uma nova vida longe de suas famílias e país. São migrantes e refugiados que buscam apoio, amizade e acolhimento. Não existe mágica, tudo que acontece ali é fruto do trabalho de dezenas de voluntários e parceiros empáticos com a migração.
A Embaixada Solidária, com apoio da Cáritas Regional e Cáritas Toledo, organizou em Toledo a Semana Nacional da Migração. Foi a primeira vez que uma série de eventos, vivências e reflexões tomaram conta da cidade por dez dias, mostrando diferentes perspectivas do processo migratório, seus reflexos e desafios.
Em sintonia com a Campanha da Fraternidade de 2023, a Semana Nacional do Migrante deste ano teve como tema: ???Migração e segurança alimentar???; e como lema: ???Para o Migrante, Pátria é a terra que lhe dá o Pão!??? A segurança alimentar e a preservação da dignidade humana diante do processo de migração forçada foram tratadas das mais diferentes formas. Acompanhe os principais momentos dessa missão solidária e humanitária.

Direito Sem Fronteiras
A Semana foi aberta oficialmente, com a participação da Embaixada Solidária no 2º Semanário Internacional Latino-Americano promovido pelo Curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Com a presença dos Migrantes, Juristas e do Ministério Público, palestrantes nacionais e internacionais provocaram o debate do processo de migração forçada, direitos humanos e outros temas.

Da Poesia ao Som dos Tambores
A Associação Cultural e Esportiva de Toledo (Ceato) foi homenageada pela Embaixada Solidária durante a cerimônia que reuniu os imortais da Academia de Letras de Toledo (ALT). A leitura e entrega dos Haicais à Ceato sublimados em quadros de cerâmica (haigas), e de autoria das haijins Lucrecia Welter e Ana Welter, bem como a história da chegada dessa arte milenar ao Brasil, emocionaram os presentes. O Haicai, hoje popular no mundo, é uma composição poética que alia a concisão à reflexão sobre a passagem do tempo e a relação entre o ser humano e a natureza.
Os membros da Ceato sempre foram solidários ao trabalho humanitário realizado em Toledo e compartilharam suas histórias com os migrantes mais recentes no Brasil. A homenagem foi retribuída de forma emocionante. O Grupo de Taiko, os tambores japoneses, fez sua apresentação na Praça da Embaixada e impressionou os presentes com o toque inconfundível do instrumento. A ALT também recebeu uma singela homenagem, afinal, são os poetas e escritores que registram todas estas emocionantes histórias. 

A paixão que une Nações
Um migrante venezuelano e sua paixão por um esporte deu origem ao Toledo Softball Club, uma equipe que uma equipe que junta/une pessoas de vários países em um dos muitos campos de Toledo. Os brasileiros também se renderam à iniciativa de Miguel Angel, esportista e migrante venezuelano que fundou o grupo que se reuniu para um jogo emocionante durante a realização da Semana do Migrante. Ele encontrou novos amigos e, a cada movimento da bola, faz lembrar que o mundo também é redondo e cheio de oportunidades de recomeçar e ser feliz.

De todos os Cantos do Mundo
A voz afinadíssima e marcante era da cubana Vikki, economista formada, migrante e dona de uma presença de palco que impressiona. A cantora cubana não trouxe apenas música, mas a afirmação de que, antes de ser migrante, é necessário ser forte. A canção, sussurrada com emoção e saudade, revelava parte da história de tantos refugiados: "Tu tristeza y tu dolor / Reflejan sus fachadas, / Es tu alma y soledad, la voz, / La voz de esta nación cansada". Ela foi seguida pela haitiana Beatrice, que entoou uma canção em forma de agradecimento e poesia. Elas deram voz aos sentimentos às vezes embargados entre tantas histórias.

O Brasil chegou com capoeira, samba, pagode, boa comida e muita história
A Capoeira abriu a noite brasileira em grande estilo. Nem a chuva, nem a noite mais fria do ano assustou quem veio para mostrar o que o Brasil tem de melhor. O Grupo Senzala de Capoeira trouxe mais que uma luta; trouxe a lembrança viva que a migração forçada não é um assunto novo, e que preservar a história é o que existe de mais sagrado em um povo. Os estilosos do Pagode fecharam a noite com chave de ouro e prometeram voltar sempre que um migrante sentir vontade de entregar-se ao ritmo mais brasileiro de todos!

Dias de acolhimento e Solidariedade
Islâmicos, católicos, evangélicos e pessoas que não confessam nenhuma fé foram acolhidos e abraçados com afeto e atenção. Foram dias para lembrar a humanidade e, em especial, a solidariedade entre os povos. Uma missa organizada pela Pastoral do Migrante foi celebrada, lembrando que a espiritualidade é parte importante na caminhada pelo mundo.

Emoções na Tela
Uma das primeiras atividades da semana foi também umas das mais divertidas. Um grande grupo de migrantes, entre eles, muitas crianças foram ao cinema; muitos pela primeira vez. O Cine Panambi foi o grande parceiro e proporcionou um lindo momento que teve direito a tradicional pipoca, suco e aquela sensação mágica de ver a vida ganhar vida naquela tela mágica que apenas o cinema tem.

O Mundo é Aqui
Isabel Gutierrez é uma artista plástica cubana que recentemente migrou para o Brasil. Isabel é das cores fortes e de emoções na mesma intensidade. Foi dela a responsabilidade de representar o mundo nas paredes da Embaixada Solidária. Ela não fez isso sozinha. Outras quatro etnias ajudaram a jovem artista na obra de arte que tem a nobre missão de alegrar os olhos de quem chega, e deixar uma doce lembrança no coração dos que contribuem com o trabalho humanitário que é realizado no local. Recentemente, duas agências da ONU, a convite da Cáritas Regional, visitaram o projeto que atua há oito anos com o refúgio e com a migração.

O Mundo em Movimento
Driely Nogueira, bailarina, embalou, com o seu corpo, a emoção dos que nem sempre podem expressar tudo o que sentem. A cada movimento, ela captava olhares de pessoas dispostas a não olhar o mundo da mesma maneira. Da dança Clássica aos festejos juninos, uma versão de um Brasil plural e acolhedor.

Cuidado e Esperança
Uma empresa com alma e solidariedade. Cuidados com os dentes, com a saúde e aquele abraço que vale mais que qualquer remédio. Profissionais da Farmácia 13 e da OdontoTop protagonizaram momentos únicos de cuidados com cada um dos migrantes. Eles saíram de lá com a sensação de que um cuidado pode mudar tudo.
Cozinha Mundo
A Segurança Alimentar foi abordada da forma mais literal possível, com muita comida na mesa para não deixar dúvidas de que esse é um direito básico do ser humano. O partir do pão foi real e muito simbólico durante todos os dias. Venezuela, Senegal, Haiti, Brasil. Cheiros se misturavam ao riso de ver a mesa farta, que nem sempre é a realidade de um migrante em sua jornada pelo mundo. Enquanto os africanos capricham no prato que lembra sua ancestralidade, uma garotinha venezuelana contava sobre a escassez na mesa da sua pátria.

Um lugar para Recomeçar
Toledo é uma cidade modelo quando o assunto é empregabilidade de migrantes. Durante a Semana do Migrante, a Agência do Trabalhador prestou atendimento na Embaixada Solidária, reforçando uma eficiente parceria entre os dois órgãos. Empresas que empregam migrantes visitaram o espaço e também receberam visitas dos refugiados.

A Dor e a Superação
A voluntária Laúdiceia Correia contou a história do Jhony e das filhas gêmeas. O homem haitiano perdeu a esposa no parto e foi amparado pela OSC em um dos momentos mais difíceis da sua vida. Apesar da saudade, Jhony venceu, suas princesas corriam pela sala enquanto a voluntária emocionada contava que eles agora são sua nova família.

A Cor da Esperança
Larissa Salgado chegou há pouco tempo, mas com uma intensidade sem explicação. A mulher preta, de olhar tão firme quanto forte e doce, nasceu dos seus pincéis ágeis e cheios de sentimentos. Aliás, quanto sentimento! A obra que Larissa doou para a causa é daquelas que moram com ousadia na parede, mas que saem a passear pela sala quando querem, provando que a arte é viva, migrante, refugiada e revolucionária.

O Mundo em Retalhos
A economia solidária também foi tema. Enquanto suas profissões e saberes não são reconhecidos, muitos dos migrantes encontram outros fazeres e profissões e dessa forma reescrevem suas histórias. O Projeto é mantido pela Itaipu Binacional e ganhou uma linda sala de costura das Cooperativas que atuam na cidade, atreves do DIA do Cooperativismo de 2022.

Memorial Chegadas
O Memorial Chegadas foi elaborado por um grupo de voluntárias com o apoio do Rotary Club Aliança, que financiou o projeto de sublimação. Em pequenos quadros de cerâmica, as cores dançaram para formar cada uma das bandeiras dos 32 países atendidos pela Embaixada Solidária em Toledo, um jeito carinhoso de dizer que o espaço é a casa de todos os povos.

Protagonismo
Foi durante a Semana Nacional do Migrante que a Cáritas e a Coordenadoria do Imigrante e Outros Grupos Vulnerabilizados, da Secretaria de Políticas para Infância, Juventude, Mulher, Família e Desenvolvimento Humano (SMDH), anunciaram a formação da Escola de Português, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica (PUC/Toledo), suprindo uma das maiores demandas dos migrantes: dominar o idioma local. O curso já começou e vai devolver aos migrantes a possibilidade da ampla comunicação.

Um Crime Invisível
Fruto de uma iniciativa da Embaixada Solidária, que discute o tema desde 2019, e que recentemente levou suas preocupações ao conhecimento da 2ª Promotoria da Comarca de Toledo/PR, a cidade agora tem um Comitê Municipal de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. A instituição do colegiado ocorreu com a publicação do Decreto nº 831/2023, publicado na terça-feira (20) do ??rgão Oficial do Município. A decisão da gestão pública de Toledo foi histórica e elogiável, visto a importância do tema.

Uma metamorfose Social
Coube ao grafitti colorir uma das cenas mais lindas e que faz parte da rotina dos atendimentos. Uma arte no muro retrata a união das mãos e vidas. Selando a união entre duas mãos, está uma linda borboleta; não por acaso, pois se trata de uma borboleta monarca, a que mais migra no mundo. Elas não conseguem sobreviver a longos invernos do hemisfério norte e migram distâncias de quase 5 mil km até o México. O artista capaz de representar a migração e o refúgio com cores, força e doçura, em traços inconfundíveis, é o Isaac Souza de Jesus, um parceiro histórico da causa. Isaac não pintou sozinho. Quando menos esperava, soube, através de uma criança haitiana que imitava seus traços, que a vida e a arte seguem através dos olhos dos que conseguem enxergar no outro toda a esperança que existe no mundo.

Uma batedeira para Mudar o Mundo
A venezuelana Rosa chegou na Embaixada sem muitas expectativas. Ela havia deixado quase tudo para trás, menos a sua pequena família e uma vontade imensa de recomeçar. Uma batedeira de bolo antiga que estava por ali chamou sua atenção. Era o incentivo que ela precisava para recomeçar. Passados dois meses, ela hoje é a professora Rosa, a culinarista que, durante a Semana do Migrante, ensinou outras mulheres de diferentes países a fazerem saborosos bolos enfeitados com as cores e a alegria de todos os povos.

Representatividade
Audiência Pública sobre Políticas Migratórias e Xenofobia no Estado do Paraná foi realizada na última segunda-feira (26), na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP). Promovida pelo Deputado Estadual, Professor Lemos, e pela Deputada Federal, Carol Dartora, a audiência reuniu migrantes, autoridades e Organizações da Sociedade Civil que trabalham diretamente com o tema. A Embaixada Solidária, convidada para o evento, representou o interior do estado, e levou demandas relacionadas ao desenvolvimento de políticas públicas. A secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Paraná, Marcia Ponce, falou pelas entidades membro do Estado do Paraná.

Muitas Mãos
Anônimos, muitos voluntários trabalharam durante meses na preparação das recepções, alimentos, atendimentos e nos bastidores dos eventos, assim como no planejamento, execução, decoração, captura de imagens, divulgação, transporte, limpeza, nas panelas, compras e emergências. Uma prova concreta de que, para mudar o mundo, é necessária uma multidão, cujos olhos tenham o brilho inconfundível do afeto, que é a mais transformadora das revoluções! O intenso inverno do Paraná aqueceu-se de esperança durante o mês de julho. Somos Todos Migrantes!
