A porta da Embaixada Solidária voltou a se abrir para uma tragédia que atravessou fronteiras. Nos últimos dias, as primeiras famílias atingidas pelos terremotos que devastaram regiões da Venezuela começaram a chegar a Toledo em busca de abrigo, segurança e da oportunidade de recomeçar.
Entre elas está a família do venezuelano Wilson Wilfredon Pinto Pérez. Na tarde em que a esposa e a filha desembarcaram, Wilson não conseguia disfarçar a ansiedade. Hanna Salomé, a caçula, tem apenas dois anos e nove meses — e para o pai, cada mês de ausência havia pesado como um ano. O reencontro aconteceu depois de um ano e meio de separação, tempo em que ele atravessou quatro países tentando reconstruir a própria vida para um dia, poder buscar a família.
A história começou muito antes de a terra tremer. Wilson vivia no Equador com a esposa e a pequena Hanna Salomé. Quando a crise econômica também alcançou aquele país, a família decidiu voltar para a Venezuela, na esperança de que o apoio dos parentes desse a eles algum chão para recomeçar. Não deu certo.
Foi então que Wilson tomou a decisão mais dura: partir sozinho, na tentativa de garantir um futuro melhor para a esposa e a filha. Cruzou o Equador, o Peru e a Bolívia até chegar ao Brasil pela fronteira de Corumbá. Trabalhou em Campo Grande, seguiu para São Paulo — onde sofreu um golpe trabalhista e, depois de receber apenas uma semana de salário, se viu em situação de rua. Sem outra saída, atravessou para a Argentina, onde resistiu durante sete meses, até decidir voltar ao Brasil para recomeçar mais uma vez.
Depois de meses vivendo em abrigo e esperando a documentação se regularizar, conseguiu, enfim, um emprego formal em Mato Grosso. Aos poucos, começou a guardar cada centavo para trazer a esposa e a filha para perto de si.
Foi nesse momento — quando a esperança finalmente parecia ter um endereço — que os terremotos atingiram a Venezuela.
A casa onde sua esposa e a filha moravam sofreu danos estruturais e precisou ser abandonada. Sem água, energia elétrica ou gás de cozinha, elas passaram a dividir espaço com outros familiares em condições extremamente precárias. Segundo Wilson, parentes morreram durante a tragédia, um luto que se somou a todo o resto que a família já carregava.
Diante da destruição e da insegurança, sua esposa tomou a decisão de deixar a Venezuela levando apenas a filha. As duas passaram quinze dias em um abrigo na região de Pacaraima até conseguirem seguir viagem até o Paraná — e, finalmente, até os braços de Wilson.
Mas a alegria do reencontro esbarrou em um novo obstáculo. A casa onde Wilson mora e divide despesas com outras pessoas não comportava a família que acabara de chegar. Assustado e sem saber o que fazer, ele buscou ajuda mais uma vez na Embaixada Solidária. E foi lá que encontrou esperança no rosto de outra venezuelana: Lissete, refugiada que também foi acolhida pela instituição quando chegou ao Brasil. Agora era a vez dela retribuir — Lissete se ofereceu para abrir as portas da própria casa e receber a família de Wilson, que deve ficar ali por alguns dias, até conseguir alugar uma moradia própria. Um gesto que mostra como o acolhimento, uma vez recebido, também se aprende a oferecer.
Uma nova frente de acolhimento em Toledo
A chegada dessa família marca também o início de uma nova frente de trabalho para a Embaixada Solidária. Depois de anos acolhendo pessoas que fugiam da crise humanitária venezuelana, a instituição passa agora a receber também vítimas diretamente atingidas pelos terremotos — muitas delas tendo perdido casas, entes queridos e todas as condições básicas de sobrevivência.
São pessoas que chegam carregando duas dores sobrepostas: a de anos de instabilidade econômica, com dificuldades de acesso a alimentos, remédios e serviços essenciais, e agora a de um desastre natural que arrancou delas o pouco que ainda tinham. Muitas desembarcam no Brasil só com a roupa do corpo — e com a esperança de encontrar, enfim, um lugar seguro para recomeçar.
A Embaixada Solidária já iniciou o acolhimento dessas famílias, oferecendo orientação para regularização documental, apoio humanitário, encaminhamento para moradia temporária, doações de roupas, alimentos e itens de higiene, além do suporte necessário para a inserção no mercado de trabalho — etapa considerada fundamental para que essas famílias reconquistem autonomia sobre a própria vida.
Segundo a instituição, a expectativa é de que novas famílias venezuelanas atingidas pelos terremotos cheguem a Toledo nas próximas semanas, o que amplia a necessidade de mobilização da sociedade.
Não é a primeira vez que a Embaixada Solidária se coloca de prontidão diante de uma tragédia. A instituição já esteve presente em outros momentos de dor, dentro e fora do Brasil, como no terremoto do Haiti, nas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul e no acidente que marcou Rio Brilhante, no Paraná. É esse histórico de acolhimento que agora se repete em Toledo, diante de mais uma tragédia que obriga famílias inteiras a recomeçar do zero.
A Embaixada Solidária reforça que continua recebendo doações de alimentos, produtos de higiene, roupas, cobertores, utensílios domésticos e móveis, além de convidar voluntários e empresas a se somarem a esse processo de acolhimento.
Mais uma vez, o emprego pleno da Região Oeste do Paraná deve ser o diferencial para quem busca recomeçar. Nos últimos dias, o número de migrantes e refugiados que procuram cadastro na Embaixada Solidária dobrou. Para dar conta dessa demanda, uma parceria com o Programa Indústria, do SESI, mantém dois colaboradores dedicados exclusivamente à empregabilidade e a outras necessidades de atendimento a migrantes e refugiados em Toledo. Eles trabalham diariamente na sede da Embaixada Solidária, ao lado das famílias, ajudando a transformar a chegada em um novo começo.
Para quem sobreviveu ao terremoto, o caminho até Toledo representa muito mais do que uma mudança de endereço. É a tentativa de reconstruir uma vida que desmoronou antes mesmo que a terra parasse de tremer. É, acima de tudo, a prova de que, por trás de qualquer discussão política sobre fronteiras e crises, existem apenas pessoas — de carne e osso — tentando sobreviver e recomeçar.