A divulgação de um "Campeonato de Farmar Aura", previsto para as 15h30 de domingo (02), no Parque do Povo Luiz Cláudio Hoffmann, gerou polêmica nas redes sociais em Toledo. A Prefeitura afirmou não ter conhecimento do encontro e informou que nenhum pedido de autorização foi protocolado.
A repercussão levou o vereador Professor Oseias (Progressistas) a se manifestar contra a realização da atividade. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele afirmou ter comunicado a Guarda Municipal (GM) para acompanhar a situação e declarou que eventos realizados no local sem autorização são irregulares. "Não tem pedido e, se tivesse, não seria aceito", afirmou, ao desencorajar a realização do campeonato.
Segundo o parlamentar, atividades em áreas públicas precisam ser previamente autorizadas para garantir a segurança dos participantes, a preservação do patrimônio e o uso adequado do espaço. Ele também alertou que os responsáveis podem responder por eventuais irregularidades.
Até a publicação desta matéria, o perfil que divulgou o evento havia sido apagado, e a reportagem não conseguiu contato com os organizadores.
O que é "Farmar Aura"
A expressão virou uma das gírias mais populares entre crianças e adolescentes das gerações Z e Alfa. Ela junta "Farmar", verbo do universo dos games que significa repetir ações para acumular pontos, itens ou experiência, com "Aura", entendida como carisma, estilo e presença. Na prática, "Farmar Aura" é uma performance que gera admiração, e "Perder Aura" é pagar mico na frente dos outros.
A tendência ganhou o mundo a partir do vídeo de um menino indonésio de 11 anos dançando na proa de uma canoa durante um festival tradicional do país. A gravação passou dos 5 milhões de curtidas e popularizou o comentário "bro is farming aura", algo como "ele está ganhando moral".
Nas últimas semanas, a performance saiu das telas e virou campeonato presencial em praças e parques de várias cidades do Brasil. Nos encontros, os participantes se apresentam com poses, danças e expressões, e o público decide quem tem mais "Aura". Em Suzano (SP), um desses eventos reuniu mais de 200 pessoas em um parque municipal, sem registro de problemas, e os vídeos passaram de 3 milhões de visualizações. Encontros parecidos já ocorreram em cidades como Teresina (PI), Belém (PA), Juazeiro do Norte (CE) e Rio Verde (GO), e em Fortaleza (CE) uma edição promovida por um shopping ocorre neste sábado (01).
Bebida, bomba de fumaça e polícia: o que já aconteceu em outros campeonatos
Nem todos os encontros, porém, terminaram bem. No último sábado (25), em Caraguatatuba (SP), uma operação da Prefeitura com as forças de segurança e o Conselho Tutelar encerrou um campeonato em praça pública: segundo o município, a divulgação prometia premiação com bebida alcoólica e cigarros, e dois adolescentes foram flagrados bebendo no local. Os organizadores negaram e disseram que o prêmio era apenas uma camiseta com o número "67". Já na quarta-feira (29), em Confresa (MT), a Polícia Militar (PM) dispersou um encontro com dezenas de adolescentes depois que vídeos mostraram o uso de bombas de fumaça nas apresentações, ninguém foi detido.
Em Cuiabá (MT), o prefeito Abílio Brunini (PL) proibiu o campeonato em um parque da capital, e a disputa foi transferida para o estacionamento da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde reuniu centenas de pessoas na última sexta-feira (24), sem problemas e com crianças acompanhadas dos pais.
O que explica a febre entre os "nativos digitais"
Os "nativos digitais" são aqueles que cresceram cercados por internet, celulares e redes sociais, caso das gerações Z e Alfa, que concentram a maior parte dos participantes desses campeonatos. O termo foi criado em 2001 pelo escritor americano Marc Prensky, em contraste com os "imigrantes digitais", que só conheceram essas tecnologias na vida adulta.
Para Clotilde Perez, diretora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), os campeonatos repetem um traço comum da juventude, a busca pelo novo e pelo pertencimento, agora atravessado pela tecnologia. Nas redes sociais, a aprovação é medida por curtidas, comentários e compartilhamentos; nos campeonatos, essa mesma lógica é levada ao mundo físico, diante de uma plateia.
Já a psicóloga Anna Lucia Spear King, especialista em dependência digital, avalia que o maior ganho é retirar das telas os jovens que passam horas isolados no celular. O encontro presencial em praças e parques pode melhorar o humor, estimular a socialização e criar um sentimento de comunidade e pertencimento. Por outro lado, ela alerta que a exigência de demonstrar confiança diante da plateia e das câmeras pode alimentar o medo do julgamento e contribuir para problemas como ansiedade, fobia social e impactos provocados pelo cyberbullying.
Para as especialistas, a tendência deve ser passageira, como costuma ocorrer com as modas que surgem e se espalham rapidamente pelas redes sociais. O organizador do campeonato de Cuiabá, por sua vez, comparou a moda às febres de outras gerações, como o Rebolation e a Dança do Siri, e previu: "tenho certeza que a minha geração também vai lembrar do 'Farmar Aura'".