A Solenidade da Ascensão do Senhor revela um dos mistérios mais profundos da fé cristã. À primeira vista, a Ascensão poderia parecer uma despedida de Jesus e o fim de sua presença visível entre os discípulos. Contudo, o Evangelho mostra exatamente o contrário. Cristo sobe ao Pai não para abandonar a humanidade, mas para permanecer de um modo novo e mais profundo no meio do seu povo.
Os Atos dos Apóstolos descrevem os discípulos olhando para o céu enquanto Jesus é elevado à glória. Antes, porém, o Senhor lhes deixa uma promessa e uma missão: “Recebereis a força do Espírito Santo que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas até os confins da terra” (At 01, 08). A Ascensão inaugura, assim, o tempo da Igreja. A missão de anunciar o Evangelho continua agora através da vida dos discípulos, chamados a tornar presente no mundo a esperança do Ressuscitado.
Por isso, os anjos perguntam aos discípulos: “Por que ficais aqui olhando para o céu?” (At 01, 11). A fé cristã não afasta o ser humano da história nem o convida a fugir da realidade. O Ressuscitado envia os seus seguidores de volta ao mundo, para testemunharem a esperança, a justiça e a misericórdia de Deus. O Evangelho não permite uma fé alienada, desligada da história. O Ressuscitado não pede aos seus seguidores que fujam do mundo, mas que transformem o mundo com a força do Evangelho. A Ascensão é um convite a assumir a responsabilidade da missão.
O Evangelho de Mateus situa o encontro final de Jesus com os discípulos na Galileia, onde tudo havia começado. A escolha da Galileia possui um significado profundo. Jerusalém já não é apresentada como o único centro religioso. Em Cristo, o verdadeiro templo é a sua própria pessoa. O encontro com Deus não está limitado a um espaço sagrado específico, mas acontece onde a Palavra é acolhida e vivida.
O evangelista afirma ainda: “Quando o viram, prostraram-se diante dele. Alguns, porém, duvidaram” (Mt 28, 17). A comunidade que recebe a missão universal não é perfeita nem livre de fragilidades. Mesmo assim, Jesus lhes confia o anúncio do Evangelho. Deus continua colocando a sua confiança em pessoas frágeis, chamadas a testemunhar a sua presença no mundo.
A Ascensão também revela uma nova forma de presença do Ressuscitado. Durante a sua vida terrena, os discípulos conviviam com Jesus de modo visível. Agora, Ele permanece presente através da Palavra, dos sacramentos e da vida da comunidade cristã. A fé passa a se apoiar na promessa do Senhor: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).
Celebrar esta solenidade é renovar a esperança. Cristo glorificado junto do Pai continua presente na história, sustentando a Igreja em sua missão e conduzindo a humanidade ao encontro da vida plena. A comunidade cristã é chamada a tornar visível este amor através do testemunho, da fraternidade e do serviço.
Assim, a Ascensão do Senhor não fala de distância, mas de comunhão. Cristo sobe ao Pai para abrir à humanidade o caminho da vida eterna e permanece presente na caminhada do seu povo. Nele, nossa esperança encontra fundamento seguro e nossa história descobre seu sentido definitivo.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo