Os Estados Unidos começaram a cobrar na quarta-feira (22) uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Para o agro da região de Toledo, porém, o impacto deve ser leve. A avaliação é do chefe do Núcleo Regional da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) em Toledo, Paulo Roberto Salesse, em entrevista ao Toledo News.
Segundo ele, a produção da região, puxada pela proteína animal e pelos grãos, vai principalmente para a Europa e a Ásia, e quase não há venda de grãos para os americanos, que também são grandes produtores.
Os números confirmam o caminho apontado por Salesse. A China é o maior destino das exportações do Paraná, com a soja e a proteína animal na frente das compras. Nas carnes, carro-chefe da região, os principais compradores são China, Emirados Árabes Unidos e Japão, e o frango sozinho responde por 85% das vendas do segmento, com US$ 1,7 bilhão exportado de janeiro a maio deste ano, segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Infraestrutura, Comércio e Serviços (MDIC).
Na Europa, o farelo de soja tem ganhado espaço, puxado pelo crescimento das vendas para a Polônia e a Dinamarca. No ranking geral de destinos das exportações paranaenses, os Estados Unidos aparecem só em quarto lugar, atrás de China, Argentina e Índia, e a pauta enviada ao mercado americano tem forte presença de produtos industriais, especialmente madeira e derivados.
Tilápia entrou na lista, mas escapou no detalhe
Os grãos e a proteína animal pouco dependem do mercado americano, mas há um produto da região que depende diretamente deste mercado: a tilápia. O Oeste do Paraná é o maior polo de piscicultura do país, e a tilápia é o principal item exportado pelo setor aos EUA, com 86% do valor no primeiro trimestre de 2026, segundo a Embrapa Pesca e Aquicultura. Diferentemente do café e da carne bovina, o peixe não foi poupado inicialmente, porque os americanos têm de quem comprar além do Brasil, como China, Colômbia e Indonésia.
O alívio veio na terça-feira (21), um dia antes de a tarifa entrar em vigor: os Estados Unidos deixaram o filé fresco fora da tarifa adicional de 25%, enquanto o filé congelado permaneceu sujeito à cobrança. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, mais de 90% das exportações brasileiras de tilápia para o mercado americano são de filé fresco.
O recorte por produto reforça o peso reduzido da categoria taxada. No primeiro trimestre de 2026, os filés frescos ou refrigerados responderam por 78% do valor exportado pela piscicultura brasileira a todos os destinos, contra 1% dos congelados, o restante se divide entre peixe inteiro e outros cortes, segundo a Embrapa.
Em Toledo e no Oeste do Paraná, a exportação de filé congelado é pequena. Por isso, conforme Medeiros, a tarifa não deve provocar mudanças na produção nem afetar de forma relevante os produtores e as indústrias da região.
Madeira e etanol puxam o impacto no Paraná
A nova tarifa foi confirmada pelo governo de Donald Trump no dia 15 de julho, depois de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) que acusou o Brasil de práticas comerciais desleais, citando temas como o Pix, o mercado de etanol, o desmatamento ilegal e a pirataria. A cobrança se soma às alíquotas que já existiam, um produto que pagava 5% para entrar nos EUA, por exemplo, passa a pagar 30%.
Com isso, o Brasil virou um dos países mais tarifados pelos americanos, ainda atrás da China. Ficaram de fora da taxação itens como café, carne bovina, laranja e açaí; na lista dos taxados estão etanol, açúcar, papel, máquinas agrícolas, calçados e vestuário.
É justamente nesses itens que o Paraná sente o impacto, como apontou Salesse, que citou os setores madeireiro e sucroalcooleiro entre os mais atingidos do estado. Em 2025, segundo a Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), a indústria paranaense vendeu cerca de US$ 1,3 bilhão aos americanos, com destaque para madeira serrada, compensados, molduras, portas, móveis e papel, itens que entraram na taxação.
Para Salesse, o efeito respinga em todo o país, somado a outros fatores que mexem com o agro, como as guerras no exterior. "A guerra tarifária sempre é prejuízo para alguém", resumiu. Ele aposta nas negociações em curso e no próprio mercado americano: na avaliação dele, o consumidor dos Estados Unidos vai continuar precisando dos produtos brasileiros, e vai pagar mais por eles. "Vai custar mais caro para eles, deve gerar inflação lá", afirmou.
A leitura é parecida com a da ApexBrasil, agência do Governo Federal de promoção de exportações. Para o presidente do órgão, Laudemir Müller, a medida encarece a madeira usada na construção civil americana e pressiona a inflação por lá.
O governo brasileiro rejeita as justificativas usadas para a taxação, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promete reagir com a Lei da Reciprocidade, aprovada em 2025, que autoriza contramedidas; a ApexBrasil também anunciou um plano de R$ 130 milhões para ajudar as empresas afetadas a buscar outros mercados.
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