Uma preocupação que acompanha os agricultores há muitos anos voltou ao centro dos debates do Grupo Agrolíder e ganhou apoio do Sindicato Rural de Toledo. O motivo é uma dúvida que permanece sem resposta para muitos produtores: por que agricultores da Região Oeste recebem valores menores pela comercialização da soja e do milho quando comparados a outras regiões do Paraná, mesmo convivendo com elevado consumo interno e grande presença de agroindústrias?
O assunto foi tratado durante conversa entre o presidente do Sindicato Rural de Toledo, Nelson Gafuri, integrantes do Agrolíder e uma comissão de agricultores que se sentem incomodados com a questão e decidiram promover uma reflexão sobre esse tema da composição dos preços pagos aos produtores. Já há bastante tempo os produtores têm tratado do assunto de custos de produção e de cotações. Além disso, eles têm visto os preços bastante achatados, quase que inviabilizando a produção, o que tem preocupado e muito o setor.
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Há aproximadamente um ano, os integrantes do Agrolíder e o Sindicato intensificaram as discussões sobre o tema, até porque a realidade econômica da região torna essa diferença ainda mais difícil de compreender. “Estamos inseridos em um mercado de bastante produção de grãos. A Região Oeste, como um todo, produz muito, mas também consome muito. As agroindústrias estão aí. Temos as duas pontas e não estamos entendendo por que temos preços tão achatados? Isso nos motivou a convidar os nossos amigos produtores a raciocinarmos, debatermos e podermos ser esclarecidos sobre esse assunto. Queremos entender de que forma ele é constituído e como é formado o preço localmente”, diz Aluir Dalposso, associado do Sindicato Rural de Toledo, membro do Agrolíder e da Comissão Técnica de Grãos do Sistema Faep.
Entre os pontos destacados em recente reunião, os agricultores questionam a diferença observada entre as cotações praticadas na Região Oeste e em municípios do Sudoeste do Paraná, somente para citar um exemplo. “Se nós formos para o Sudoeste, aproximadamente 100 quilômetros, temos visto diferenças de R$ 10,00 por saca de milho. Estamos na iminência da safra, iniciando a colheita, e nos chama a atenção uma diferença tão significativa entre regiões tão próximas. Nós, como produtores, gostaríamos de ter um entendimento. Volto a dizer: como é feita essa composição do preço que nos é pago pelos produtos?”, questionam os produtores.
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Humana Saúde SulOutro aspecto levantado pelo agricultor refere-se à logística e à localização da região. Por exemplo: Toledo dista aproximadamente 600 quilômetros do Porto de Paranaguá, e os preços de paridade não batem, evidenciando uma defasagem daquilo que é pago no Oeste. Por isso, é importante observar a característica da Região Oeste que concentra produção e consumo. “Estamos inseridos numa região que apresenta as duas pontas: a consumidora e a produtora de grãos. Nos preocupa porque, tendo esse mercado constituído e levando em consideração os preços de paridade para exportação, mesmo assim ainda temos preços achatados. Isso nos intriga”, completa.
Outra situação que desperta dúvidas entre os agricultores é o fato de empresas do mesmo segmento adotarem preços diferentes conforme a região. Tanto que alguns produtores estão saindo com o caminhão carregado da lavoura e levando ao Sudoeste para receber R$ 10,00 a mais por saca. “É algo que nos chama a atenção. Quem tem essa condição, está tendo ganhos. Mesmo levando em consideração as despesas de distância e deslocamento, eles estão ganhando do que nós aqui. Isso nos intriga”, pontua Dalposso.
Nesse sentido, a mobilização dos agricultores tem um único objetivo: divulgar essa reflexão e que os produtores participem desse debate.
Segundo o presidente do Sindicato Rural de Toledo, Nelson Gafuri, ouvir as demandas dos produtores faz parte da missão institucional da entidade, especialmente em um momento em que os custos de produção continuam elevados e a remuneração obtida com a comercialização dos grãos preocupa o setor. “Sempre estamos recebendo as demandas dos agricultores, principalmente agora nessa época da colheita, quando o pessoal gostaria de saber como funciona. O pessoal do Agrolíder veio conversar conosco e também outros agricultores que querem saber por que, justamente onde a gente consome o milho, ele é mais barato do que em regiões onde não há esse consumo”, pondera.
Gafuri analisa que a consequência é uma rentabilidade cada vez menor. “Sei que o agricultor está trabalhando praticamente no vermelho. O custo é mais caro do que o preço que a gente vende. Se a gente contar tudo, hoje o agricultor não sobra mais nada”, considera. Entre os principais fatores que pressionam os custos, o presidente do Sindicato Rural de Toledo cita os insumos agrícolas e as exigências legais. “Subiram muito o adubo, o inseticida, o fungicida e a própria mão de obra, com todas essas normas que vêm nas mudanças na jornada de trabalho. Quem vai pagar isso é o produtor e o consumidor”, avalia.
Além da discussão sobre os preços pagos pela produção, os produtores rurais acompanham há anos a evolução dos custos de produção. “Às vezes temos justificativas relacionadas às cotações do dólar. O dólar sobe e com ele o custo de produção; sobem defensivo, adubo e fertilizantes. Mas quando o dólar volta, isso não acontece. Os preços continuam em patamares altos”, comenta o integrante do grupo Agrolíder.
A combinação entre custos crescentes e preços considerados baixos ameaça a sustentabilidade das propriedades familiares. A escalada dos custos de produção e preços dos produtos achatados está tornando inviável muitas propriedades rurais da região que possuem característica de produção familiar. “Eu, como filho de produtor, estou numa propriedade familiar. Não sei até quando vou conseguir me manter dentro da propriedade produzindo. Vejo custos subindo, cotações baixando e dificuldades para gerir e administrar a propriedade. Vai chegar um ponto em que não consigo mais deixar essa empresa rural viável”, revela Dalposso.
Por conta disso, apesar da evolução da produtividade agrícola e da importância econômica do setor para Toledo, surgem os questionamentos, uma vez que os resultados financeiros não acompanham esse crescimento. “Se observarmos o histórico, nossa evolução de produção tem sido muito grande e a contrapartida não. Produzimos mais, geramos divisas, geramos riquezas para o município; o VBP de Toledo vem sendo divulgado há muito tempo; e a contrapartida não está sendo na mesma proporção”, afirma.
Para o presidente do Sindicato Rural de Toledo, ampliar o diálogo entre produtores, cooperativas, empresas e indústrias pode contribuir para esclarecer os critérios utilizados na formação dos preços. “Talvez seja melhor baixar custo e colher menos do que querer colher muito e não sobrar nada? Talvez diminuir um pouco o adubo, diminuir a quantidade produzida, mas ficar mais bem remunerado? Precisamos conversar sobre isso”, pontua.