Em uma sala de aula da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Toledo, muito mais do que verbos, artigos e regras gramaticais são ensinados. A cada encontro, homens e mulheres que deixaram seus países em busca de segurança, trabalho, estudo e uma nova oportunidade descobrem que aprender português significa conquistar autonomia, dignidade e pertencimento. É por meio do projeto de extensão do Centro de Línguas de Toledo (Celto), desenvolvido em parceria com a Prefeitura de Toledo e, mais recentemente, com o Instituto MBRF, que centenas de migrantes encontram na universidade um espaço de acolhimento, inclusão e recomeço.
Para quem nasceu em outro país, as primeiras palavras em português representam muito mais do que um novo idioma. Elas significam a possibilidade de pedir informações, explicar uma dor durante uma consulta médica, assinar um contrato de trabalho, abrir uma conta bancária, conversar com um vizinho ou simplesmente sentir-se parte da comunidade onde escolheu reconstruir a vida.
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Cresci e PerdiÉ exatamente essa transformação que acontece dentro das salas de aula do projeto de extensão do Celto/Unioeste. Desde 2021, a iniciativa promove cursos gratuitos voltados à população migrante residente em Toledo e região, oferecendo muito mais do que ensino de idiomas: oferece acolhimento, respeito às diferenças culturais e oportunidades para uma integração efetiva à sociedade brasileira.
Entre os estudantes está o boliviano Giovanni Franz Calizaya Jimenez, de 30 anos. Há um ano vivendo em Toledo, onde cursa Pós-Graduação em Engenharia Química na Unioeste, ele encontrou nas aulas de português uma ferramenta indispensável para enfrentar os desafios da rotina. "Fiquei muito alegre e aliviado, porque o idioma é muito importante para o dia a dia e a gente precisa se comunicar com as pessoas daqui", relata.
Mesmo já frequentando a universidade, Giovanni explica que dominar a língua portuguesa continua sendo um dos maiores desafios da adaptação ao Brasil. "A gente está aprendendo desde o início: números, verbos, artigos. O professor faz as aulas de forma didática, utilizando slides, para que a gente consiga entender melhor", conta.
Histórias como a do boliviano Giovanni encontram eco em diferentes sotaques que se cruzam diariamente nas salas do projeto. Entre eles está o italiano Lorenzo Scremin, de 58 anos. Há exatamente um ano em Toledo, ele descobriu o curso por meio das redes sociais. "As aulas estão me permitindo aprimorar meu conhecimento da língua portuguesa, especialmente a escrita. Elas ajudam a consolidar e aprofundar o que já aprendi ao longo do tempo, ajustando detalhes e tornando o uso do idioma mais preciso. Para mim, é uma oportunidade muito valiosa, e sou grato aos organizadores do projeto por essa iniciativa tão útil", afirma.
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Para ele, aprender o idioma é muito mais do que dominar regras gramaticais. "Saber se comunicar corretamente na língua do país que nos acolhe é fundamental para a nossa vida como migrantes. É a chave que abre as portas para a integração, para o trabalho e para uma vida mais tranquila e independente", resume.
Assim como Lorenzo, outros estudantes enxergam no projeto uma oportunidade de construir uma nova trajetória no Brasil. O haitiano Exode Exil, de 24 anos, encontrou na universidade a oportunidade de construir um novo futuro. O incentivo para participar do projeto veio da própria família. "Tenho duas irmãs que obtiveram o certificado de proficiência em língua portuguesa graças a este projeto, e foram elas que me falaram sobre ele", relata.
"Estou aprendendo muito e é maravilhoso adquirir novos conhecimentos. Para mim, este projeto é o melhor que existe. Ele nos ajuda a nos integrar à comunidade em que estamos inseridos, porque, quando se é estrangeiro, o idioma pode ser uma barreira. Mas, graças a este projeto da Unioeste, estamos aprendendo português de forma gratuita e eficaz", destaca.
Desde o início das atividades, o projeto já formou quase 400 estudantes, mantendo atualmente cerca de 60 matriculados. A iniciativa realiza, em média, de duas a três turmas anuais de português. Em março de 2026, um novo convênio firmado com o Instituto MBRF ampliou a atuação do projeto, permitindo a oferta de três turmas de português, uma de crioulo haitiano e uma de espanhol voltadas ao atendimento da população migrante.
Para a coordenadora do projeto, professora Dra. Sandra Mara Pereira D’Arisbo, aprender português representa muito mais do que adquirir conhecimento linguístico. "Acredito que, para os migrantes, mais do que aprender o português, eles conseguem se inserir na sociedade e realizar tarefas cotidianas. Parece algo tão simples, mas, sem conhecer o idioma, torna-se bastante difícil", destaca.
Ela explica que o projeto também busca aproximar os serviços públicos da realidade vivida pelos migrantes. Por isso, além das aulas de português, são oferecidos cursos de espanhol e crioulo haitiano destinados a servidores públicos e profissionais que atendem essa população. "A oferta dos cursos de crioulo haitiano e de espanhol tem a intenção de facilitar o trabalho dos próprios servidores e funcionários, públicos ou não, que atendem esta população migrante. Sabendo comunicar-se, ao menos com termos básicos, conseguem auxiliar e melhorar o atendimento a esse público", explica.
Os desafios vão muito além da sala de aula. Nos serviços públicos, um termo mal compreendido pode comprometer um atendimento inteiro. Para ilustrar essa realidade, a coordenadora do projeto cita uma situação discutida durante uma reunião com profissionais da área da saúde. "Imagine explicar para uma migrante grávida que todo mês ela precisa fazer o pré-natal. Muitas vezes, a conexão que ela faz é com o Natal, o nascimento de Cristo, e acaba entendendo que deve voltar apenas perto de dezembro. Há muitas ausências em consultas médicas, escolas e postos de vacinação justamente porque precisamos aprender a utilizar palavras mais simples e frases mais curtas. O tradutor ajuda, mas traduz apenas as palavras, não o contexto da conversa", relata.
O trabalho seguirá crescendo. Em agosto, serão abertas as inscrições para mais quatro turmas de português duas em parceria com a Prefeitura de Toledo e duas com o Instituto MBRF, além de uma nova turma de crioulo haitiano. As aulas estão previstas para começar no dia 5 de setembro.
Para eles, aprender português significa muito mais do que dominar uma nova língua. Significa conseguir falar, ser ouvido, conquistar autonomia e, sobretudo, sentir que pertencem ao lugar onde decidiram recomeçar. É exatamente essa ponte entre conhecimento, cidadania e acolhimento que a Unioeste continua construindo todos os dias.