No Evangelho deste domingo, dia 01º de fevereiro, entramos em contato com o sermão da montanha onde apresenta o seu projeto de vida colocando as bem-aventuranças como centro vivo da experiência cristã: trata-se da síntese do programa de vida de Jesus e, consequentemente, dos seus discípulos e discípulas de todos os tempos (cf. Mt 05, 01-12). Ali, Jesus não apenas ensina algo sobre a felicidade, Ele revela uma maneira nova de existir. Ao subir a montanha, sentar-se e ensinar, Jesus assume a posição do Mestre que fala a partir da própria vida. Não apresenta um código externo de normas, mas comunica uma sabedoria encarnada, um caminho que Ele mesmo percorre.
As bem-aventuranças desconcertam porque rompem com os critérios habituais de sucesso, poder e segurança. Jesus não chama felizes os vencedores da história, mas aqueles que, aos olhos do mundo, parecem frágeis ou inacabados. Pobres em espírito, os que choram, os mansos, os famintos de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz e os perseguidos são proclamados bem-aventurados não porque sua situação seja fácil, mas porque nela se abre um espaço real para Deus.
Ser pobre em espírito significa reconhecer que a vida não se sustenta sozinha. É viver com as mãos abertas, sem absolutizar o que se possui ou o que se é. O choro, longe de ser exaltado em si mesmo, revela um coração que não se fechou diante da dor do mundo. A mansidão não é passividade, mas a força de quem recusa a violência e confia que Deus age mesmo quando não domina. A fome e a sede de justiça expressam uma inquietação de não se acomodar diante do mal.
A misericórdia nasce da consciência da própria fragilidade. Só quem sabe que precisa ser perdoado aprende a olhar o outro com compaixão. A pureza de coração não é perfeccionismo moral, mas simplicidade interior, um coração unificado, capaz de reconhecer Deus também em momentos difíceis da vida.
Construir a paz não é evitar conflitos, mas enfrentá-los de modo criativo e reconciliador, criando vínculos onde antes havia muros. E a perseguição, longe de ser negada, é apresentada por Jesus como uma possibilidade real do seguimento, sinal de uma vida já comprometida com o Reino.
As bem-aventuranças não descrevem heróis inalcançáveis. Elas narram o próprio modo de viver de Jesus. Ele é o pobre em espírito, o manso, o misericordioso, o perseguido. Por isso, segui-las não é imitar um ideal abstrato, mas deixar que a vida de Cristo se torne o critério da própria existência. Trata-se de uma felicidade que não elimina a cruz, mas garante que nenhuma dor é inútil quando vivida em comunhão com Deus.
A felicidade anunciada por Jesus não é uma recompensa futura reservada aos que se comportam bem. Ela começa já, no presente, quando a vida se deixa atravessar por Deus. É uma felicidade que nasce do encontro, da confiança, da abertura. As bem-aventuranças libertam da ilusão da autossuficiência e revelam que a vida floresce justamente quando aceita a sua fragilidade.
O Evangelho das bem-aventuranças é um manifesto profético, uma revolução do olhar. Onde o mundo vê fracasso, Deus vê possibilidade. Onde o mundo enxerga o fim, Deus inaugura o começo. Jesus não exalta o sofrimento, Ele afirma que Deus escolhe estar exatamente ali, nos lugares frágeis e feridos da existência humana.
As bem-aventuranças pedem uma escuta contínua. Elas inquietam, provocam e desinstalam, porque nos obrigam a rever critérios, desejos e escolhas.
Ensinam que a felicidade cristã não é escapar da vida, mas habitá-la com Deus. Mesmo nas zonas mais frágeis da nossa história, o Reino já está nascendo. E é aí que a vida, surpreendentemente, se torna plena.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo