As últimas parábolas do discurso de Jesus sobre o Reino dos Céus (Mt 13,44-52) conduzem o discípulo ao coração da vida cristã. Depois de falar da semente, do joio, do grão de mostarda e do fermento, Jesus revela o verdadeiro motivo pelo qual vale a pena acolher o Reino: ele é o maior tesouro que uma pessoa pode encontrar.
As duas primeiras parábolas apresentam imagens muito semelhantes. Um homem encontra um tesouro escondido num campo; um comerciante descobre uma pérola de valor incomparável. Em ambos os casos, a reação é idêntica: vendem tudo para adquirir aquilo que encontraram. O centro da mensagem não está no desprendimento em si, mas no valor incomparável daquilo que foi descoberto. Quem encontrou Cristo percebe que nada neste mundo pode ser comparado a Ele. Não se trata de perder, mas de ganhar. O discípulo renuncia ao que é passageiro porque encontrou aquilo que permanece para sempre.
O tesouro está escondido. O Reino de Deus não se impõe pela força nem pelo brilho das aparências. Ele se manifesta na simplicidade da Palavra, na vida da Igreja, na Eucaristia, no serviço aos pobres, na oração silenciosa e na fidelidade cotidiana. Muitos passam por esse campo sem perceber o tesouro que ali se encontra. Somente quem possui um coração aberto e dócil reconhece a presença de Deus escondida na história.
A primeira leitura ilumina esse caminho. Diante da possibilidade de pedir qualquer coisa a Deus, Salomão não escolhe riqueza, poder ou uma vida longa. Pede um coração sábio, capaz de discernir entre o bem e o mal (1Rs 3,5-12). Antes de encontrar o tesouro é necessário um olhar novo. A sabedoria é justamente essa capacidade de reconhecer o que realmente possui valor. Quem não faz esse discernimento corre o risco de trocar o eterno pelo imediato, o essencial pelo superficial.
A parábola da rede recorda que a misericórdia de Deus não elimina a responsabilidade humana. A rede recolhe peixes de toda espécie, mas chegará o momento da separação. O Reino é oferecido a todos, porém exige uma resposta concreta. A salvação não acontece automaticamente. A vida presente é o tempo da decisão, da conversão e da perseverança.
O Evangelho conclui com um convite dirigido aos discípulos: tornarem-se mestres do Reino, capazes de tirar do seu tesouro coisas novas e coisas antigas. Jesus leva à plenitude tudo aquilo que Deus havia preparado desde o Antigo Testamento. O verdadeiro discípulo aprende continuamente na escola da Palavra e anuncia com alegria a novidade de Cristo.
A pergunta de Jesus: "Compreendestes tudo isso?" também é dirigida a nós. Compreender o Evangelho não significa apenas conhecê-lo, mas permitir que ele transforme nossas escolhas. Muitas vezes gastamos nossas melhores energias procurando tesouros temporários. Acumulamos bens, compromissos e preocupações, mas permanecemos inquietos porque somente Deus pode preencher plenamente o coração humano.
Qual é o verdadeiro tesouro da nossa vida? Gastamos tempo, energias e preocupações para conquistar muitas coisas. Entretanto, somente Cristo pode nos conduzir à salvação que está em Deus. Quando Ele ocupa o primeiro lugar, todas as demais realidades se tornam secundárias. Quem descobre esse tesouro compreende que vale a pena entregar tudo, porque, no fim, nada se compara à alegria de entrar no Reino de Deus.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo