'Senhor, tu sabes que eu te amo; apascenta as minhas ovelhas'

O Senhor ressuscitou. A luz da sua Páscoa resplandece na Igreja e ilumina a vida do mundo. No entanto, ainda temos um caminho a percorrer, para que o mistério da nossa existência possa ser alcançado e iluminado por essa esperança. É necessário continuar o caminho dificultado pelos nossos medos e pelas nossas tentativas de voltar a confiar apenas em nós mesmos e em nossas próprias forças.
Após a tragédia da Sexta-feira da Paixão, o silêncio ensurdecedor do sábado santo e a esperança impossível do túmulo vazio, os discípulos retornam à Galileia. Amargurados pela culpa, decepcionados e abatidos pelo desfecho da sua aventura, os seguidores de Cristo são tentados a considerar essa experiência como uma bela fase que, agora, pode ser considerada encerrada: «Vou pescar» (Jo 21, 03).
A pesca é sempre um símbolo da atividade apostólica, muitas vezes marcada por dificuldades, perseguições, aridez, rede vazia, desalento. O resultado da pesca realizada durante a noite, sem luz e sem Jesus é um grande fracasso. A chegada da manhã coincide com a presença de Jesus (luz do mundo). Quando acolhem a palavra do Senhor, o resultado é outro. O evangelista quer afirmar que podemos colocar todas as nossas forças na tentativa de mudar o mundo; mas se Cristo não estiver presente, se não escutarmos a sua voz, se não ouvirmos as suas propostas, se não estivermos atentos à Palavra que Ele continuamente nos dirige, os nossos esforços não farão qualquer sentido e não terão qualquer êxito duradouro. É preciso ter a consciência nítida de que o êxito da missão cristã não depende somente do esforço humano, precisamos da presença viva do Senhor Jesus.
Mesmo quando Deus se manifesta e volta a encher nossas redes, não é automático passarmos da tristeza à alegria. Na trama da nossa humanidade, podem permanecer fardos pesados que a fé não consegue mover, feridas que custam a cicatrizar, apesar dos sinais e indícios de um amor disposto ao perdão. O Senhor compreende, aproxima-se de Simão e, por três vezes, o interroga para tentar restabelecer uma relação liberta de culpas inúteis: “Simão, filho de João, tu me amas”, (Jo 21, 17).
Na terceira vez, o coração de Pedro se parte e finalmente ressuscita. O discípulo que negou o Senhor agora já não tem forças para negar a manifestação de uma misericórdia tão fiel, que é capaz de suscitar novos horizontes de vida e de esperança: “Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais jovem, vestias-te a ti mesmo e ias para onde querias’, mas quando fores velho, estenderás as mãos, e outro te vestirá e te levará para onde não queres”, (Jo 21, 18). Quando encontrou Jesus, Pedro era jovem e pronto a morrer por um ideal religioso; agora tornou-se adulto e humilde, disposto a viver para testemunhar ao mundo a profunda liberdade de quem não precisa mais partir de si mesmo para fazer qualquer coisa: “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens”, (At 05, 29).
Quando nos deixamos alcançar pela força transformadora do perdão, podemos finalmente entrar na maturidade da vida em Cristo, e começar a acolher as coisas e as pessoas como são, e não como gostaríamos que fossem. Só assim nos tornamos “testemunhas”, credíveis da Páscoa, quando compreendemos que, na vida, há muito mais a valorizar do que a decidir, muito mais a acolher do que a escolher. Ao atingir essa maturidade, nos tornamos, verdadeiros anunciadores da ressurreição de Cristo: tanto a nossa vida quanto a nossa “morte” tornam-se ocasiões em que Deus pode ser “glorificado”; (Jo 21, 19).
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo de Toledo
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Dom João Carlos Seneme é bispo da Diocese de Toledo. Novos conteúdos são publicados semanalmente.
















Cartão Perdido em nome de Marta Regina Barbosa Davide