O Evangelho deste 5º Domingo da Quaresma, 26 de março, nos apresenta o relato da ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-45). O tom do relato é, ao mesmo tempo, sério e cheio de confiança. Diante de nós aparece a certeza da morte, a morte de Lázaro e também a morte de Jesus, que se dirige a Jerusalém mesmo sabendo que há um complô contra Ele. Há também a perspectiva da esperança: se a morte continua a nos ferir e assustar, a ressurreição de Lázaro antecipa que a morte é uma passagem. A ressurreição de Jesus aniquilará definitivamente a morte.
A consciência do limite é uma das experiências constitutivas do ser humano. Todos os dias experimentamos nossa finitude e nossa incapacidade radical de encontrar sentido quando vivemos situações de morte, doença e impotência. Neste instante, a fé vem em nosso socorro e nos dá sinais de esperança. Já fomos salvos por Deus através de Jesus Cristo morto e ressuscitado e com Ele vamos superar todas as dificuldades que nos afligem.
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O episódio da ressurreição de Lázaro é o anúncio antecipado deste novo dia. De fato, no Evangelho de João, esse episódio funciona como uma moldura entre a primeira parte do Evangelho (Jo 1-12) e a segunda (Jo 13-20). O episódio é colocado na fronteira entre o ministério de Jesus e sua Páscoa de morte-ressurreição. As cenas que se seguem são construídas em progressão constante e os leitores são convidados a se identificar com os personagens, a embarcar em um caminho que leva da dúvida à fé no Senhor da vida.
O primeiro ato do drama nos apresenta os protagonistas, não sem inconsistências gritantes. De fato, Jesus é apresentado como quem "amava Lázaro"; no entanto, no momento da notícia da doença de seu amigo, Ele espera ainda dois dias antes de partir. Quando decide ir, Jesus encontra Lázaro no túmulo. Atitude estranha: por que esperar? Por que os males do ser humano acabam destruindo-o? Por que Deus não intervém imediatamente diante das necessidades do ser humano? Por que, por que
...? No momento, o ser humano permanece sem resposta, apenas com uma afirmação enigmática: "Esta doença não leva à morte, mas à glória de Deus".
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Expresso NordesteNa segunda cena, Jesus encontra Marta, a irmã sensível e prestativa, profundamente humana e espontânea, porém sua fé é vacilante. Ela acredita em Jesus, junta-se a Ele na fé professada na ressurreição do último dia, mas, quando o Mestre manda remover a pedra do sepulcro, ela o lembra dos quatro dias que se passaram desde sua morte. Como pode quem já cheira mal reviver? Jesus se apresenta como o Senhor da Vida, Aquele que faz viver. "Eu sou a ressurreição e a vida". Deus não criou a morte e o Filho veio para testemunhar o Deus da vida. O único requisito é a fé, porque quem acredita já tem vida eterna e não terá que temer a morte.
No terceiro ato, Maria entra em cena. Jesus a vê, é tomado pelo sofrimento e chora. Ele reage contra o reino da morte. Jesus não veio para nos ensinar a resignação, mas para combater o mal e vencê-lo. A raiva e as lágrimas de Jesus são sua primeira resposta à dor humana: a resposta de um Deus que não criou a morte e se entristece com esta derrota suprema no projeto de vida e bênção que Deus tinha dado ao ser humano. Deus se torna solidário com o ser humano e envia o Filho para derrotar para
sempre a morte.
No último ato Jesus permanece sozinho. Neste momento reza ao Pai e grita ???Lázaro, vem para fora???! João não se preocupa em descrever o milagre com detalhes, para não distrair o leitor do que realmente importa: o poder de Jesus de dar vida. Ele é o verdadeiro protagonista; se queremos encontrar uma resposta para a questão angustiante da morte é para Ele que devemos olhar; é Ele é que precisamos ouvir. Diante da pergunta "por que o mal? Por que a morte?" Deus respondeu enviando seu Filho para nos salvar. O Filho de Deus deu, aos que creem, a certeza de que a morte não terá a última palavra.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo diocesano de Toledo