Presos em seu país e abandonados pelo mundo: A próxima revolução haitiana pode começar no Brasil e ecoar globalmente

Quem precisa partir ou retornar para reunir os seus entes queridos é explorado em quase todos os casos, em uma jornada clandestina e arriscada que alimenta o tráfico de pessoas – um negócio lucrativo para criminosos, enquanto as autoridades permanecem inertes. O Haiti foi o berço da primeira revolução de escravos bem-sucedida e, em 1804, tornou-se a segunda república independente das Américas, um feito extraordinário que ecoou como um grito de liberdade contra a opressão colonial francesa. Contudo, esse legado histórico contrasta dolorosamente com a realidade atual: um país esfacelado pela corrupção, pela violência sistêmica e pela negligência das instituições – onde a luta por dignidade continua, mesmo quando os próprios haitianos são abandonados pela pátria em solo estrangeiro.
Em meio à devastação ambiental, à instabilidade política e à violência desenfreada, milhares de haitianos são forçados a abandonar a sua terra natal em busca de sobrevivência e esperança. Dados revelam que cerca de um em cada seis haitianos vive no exterior, o que evidencia o altíssimo preço – tanto financeiro quanto emocional – que essa migração impõe ao povo. Famílias inteiras são dilaceradas, com pais, mães, esposos e esposas obrigados a viver separados por longos anos, enquanto processos burocráticos e exigências documentais tornam a reunião familiar um sonho quase inalcançável. As fronteiras se transformaram em barreiras intransponíveis que perpetuam a separação, mesmo quando o desejo de reencontro é intenso e urgente.
A situação se agrava ainda mais quando se observa que quase todos os migrantes que tentam sair ou retornar para ver os seus entes queridos acabam sendo explorados. Intermediários inescrupulosos, conhecidos popularmente como "coiotes", lucram com essa vulnerabilidade, cobrando taxas abusivas que variam entre US$ 1.000,00 e US$ 2.000,00 para agendar vistos e acelerar processos. Esse esquema transforma a migração em um verdadeiro negócio ilícito, no qual o preço a ser pago por uma chance de reunificação familiar se torna quase insustentável.
Além dos custos financeiros, os riscos das viagens clandestinas ampliam ainda mais o sofrimento dos haitianos. Desde a suspensão dos voos comerciais diretos entre o Brasil e o Haiti, impostas pela pandemia, muitos são obrigados a recorrer a voos charter com tarifas que podem ultrapassar R$ 12 mil. Tais viagens, realizadas em condições precárias, expõem os migrantes a perigos constantes – desde a possibilidade de serem vítimas de tráfico de pessoas até a ocorrência de outros crimes violentos –, tornando cada jornada uma verdadeira aposta contra a própria vida.
Essa realidade, marcada por exploração e descaso, não pode mais ser ignorada. Ela revela um sistema que, ao invés de facilitar o direito à reunião familiar e à dignidade, impõe barreiras intransponíveis, separando famílias e minando a esperança de um futuro melhor.
Descaso Consular e Institucional
A situação se agrava pela ineficiência de instituições que deveriam ser pilares de apoio para os haitianos. A embaixada do Haiti no Brasil, atualmente sob a coordenação de Rachel Coupaud, tem se destacado negativamente por sua total inoperância. Muitos haitianos aguardam há mais de três anos pela emissão de passaportes e outros documentos essenciais, mesmo após pagarem valores exorbitantes – em um claro exemplo de corrupção e negligência.
Do mesmo modo, a burocracia imposta pelo governo brasileiro para a emissão do visto humanitário e os processos de reunião familiar transformam o sonho de reunificação em um labirinto sem saída. Programas criados para ajudar acabam se tornando instrumentos de exploração, onde a promessa de proteção se dissipa em práticas abusivas e desumanas. Rachel Coupaud pode tem errado e isso tem custado a dignidade e a vida de muitos daqueles que verdadeiramente lutam pelo Haiti, que pode não ser de fato o país do coração de Rachel Coupaud.
Nem todos que tem a mesmo descaso e indiferença pela Pérola das Antilhas, devido à sua beleza natural exuberante, paisagens impressionantes e à rica cultura que floresceu desde o período colonial. Esse epíteto remete à ideia de uma joia rara e valiosa, destacando o encanto do país em meio ao Caribe.
Muitos dos que conseguiram sair em busca de uma vida melhor e outros que se refugiaram da perseguição estão dispostos a voltar. O Haiti segue em ruínas, mas sabe que os seus filhos – crianças e jovens – estão espalhados por toda a terra. Uma dessas histórias é a do jovem Pierre Erick Bruny, cujo sonho é simples, embora repleto de complexidade: ele deseja que nenhuma criança ou jovem seja arrancado do Haiti a fórceps, seja pela violência ou pela miséria, para que não vivam um destino diferente do seu e de sua geração. Bruny anseia por um futuro onde a beleza do mar azul e o orgulho de uma bandeira hasteada na revolução continuem a aquecer os corações daqueles que esperam por dias melhores.
Pierre Bruny é advogado e tem dedicado os seus dias para reunir haitianos pelo mundo, mas outros povos, como o brasileiro, por exemplo, também estão na luta por dignidade, respeito e liberdade. A história de vida dele é marcada por coragem, amor e resiliência. Incentivado por sua mãe, que vislumbrava um futuro melhor longe da fome e da miséria do Haiti, Bruny deixou a sua terra natal ainda criança e encontrou refúgio no Brasil. Mas, mesmo longe, as ruas e o clamor do Haiti nunca deixaram de ecoar em seu coração.
Hoje, Pierre Erick Bruny é o símbolo de uma nova geração que recusa a submissão ao descaso e à exploração. Fundador do movimento “Male” – que em crioulo significa “Eu Vou” –, ele representa a determinação de retomar o destino de seu povo. E eles vão mesmo e isso é apenas uma questão de tempo.
“Saí do Haiti em busca de dignidade e esperança, e mesmo longe, as vozes de Port-au-Prince e os sonhos do nosso povo nunca se apagaram. Com o ‘Male’, eu digo: Eu Vou. Eu vou lutar para que cada haitiano possa reunir a sua família, regularizar a sua vida e, finalmente, respirar com dignidade. Nossa revolução é contra a miséria, a exploração e a injustiça. É a revolução de um povo que se recusa a ser esquecido”.
Bruny defende que a verdadeira revolução haitiana não se limita a ideologias – não é a favor ou contra o capitalismo, socialismo ou comunismo – mas é, antes de tudo, uma luta contra a exploração, a corrupção e a injustiça que impedem o seu povo de ter um futuro digno. Essa luta, que começa nas ruas do Brasil, tem o potencial de inspirar uma transformação global.
Mudança e Justiça
A realidade é clara: famílias inteiras estão separadas, e cada tentativa de reunificação se depara com barreiras que exploram, desumanizam e arriscam a vida dos migrantes. A cada dia, a burocracia, a corrupção e os altos custos – seja para obter vistos ou para conseguir passagens seguras – tornam o sonho de um recomeço cada vez mais distante.
Enquanto autoridades e instituições dormem em meio a privilégios, grupos criminosos lucram com a exploração de um povo que já carrega em seu passado a luta pela liberdade. É urgente que o governo brasileiro e o governo haitiano – especialmente a embaixada haitiana no Brasil – assumam a sua responsabilidade, simplifiquem os processos e garantam que os haitianos possam, finalmente, reunir as suas famílias e regularizar as suas vidas.
A Embaixada do Brasil no Haiti e o Governo Federal ensaiaram medidas para solucionar uma das questões mais críticas enfrentadas pelos haitianos: a reunião familiar. Em 2023, foi lançado um programa que pretendia facilitar o acesso aos documentos necessários para que migrantes pudessem reunir os seus entes queridos. No entanto, essa iniciativa, aliada à Portaria de Nº 51, instituída em 2024 para simplificar a emissão do visto humanitário, revelou-se ineficaz. Em vez de eliminar as barreiras, as medidas criaram uma onda falsa de esperança, perpetuando um sistema de burocracia abusiva e exploração. Enquanto o Estado tenta, sem sucesso, regular os processos, intermediários lucram com a vulnerabilidade dos haitianos, que se veem cada vez mais distantes de um direito fundamental: a reunião de suas famílias.
Os relatos e dados apontam para uma realidade inegável: haitianos e haitianas não são apenas uma força de trabalho explorada ou números frios nas estatísticas. Famílias inteiras são separadas pelo mundo, com pais e mães forçados a viver longe de seus entes queridos, enfrentando burocracias abusivas, custos exorbitantes e riscos diários em jornadas clandestinas que alimentam o tráfico de pessoas. Enquanto as instituições responsáveis parecem inoperantes, a indignação do povo cresce e a necessidade de mudanças se torna urgente.
Nesse contexto, o movimento que tem ganhado força no Brasil e em outras partes do mundo propõe uma nova visão para o futuro do Haiti. Inspirado pela história de independência do país – que, há mais de dois séculos, rompeu as correntes do colonialismo francês –, esse movimento reconhece que os haitianos, especialmente as mulheres que foram fundamentais na luta pela liberdade, merecem ser vistos como cidadãos plenos e não apenas como força de trabalho.
O movimento pode ser conhecido e acompanhado através das redes sociais, onde jovens, líderes e entusiastas se unem para buscar soluções que garantam dignidade e justiça ao povo haitiano. Siga-nos no Instagram @maleayiti, no Facebook MALE Ayiti e no TikTok e junte-se a essa mobilização que busca transformar realidades e resgatar o futuro de um dos povos mais resilientes do mundo.




















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